quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Trilhos dos Abutres 2015


Os Trilhos dos Abutres é talvez a prova mais desejada do Trail nacional. Tornou-se quase uma Meca nesta modalidade.
Dorsal 608 - Ultra Trilhos dos Abutres 2015

O fenómeno é interessante, junta a espectacularidade da Serra da Lousã com um grau de dureza superior à maioria das outras provas, o que, constitui um desafio para quem quer ir um pouco além nas suas conquistas desportivas.

Depois é um pouco de “passa-a-palavra” e uma ideia de “quanto-pior-melhor”, típica desses Locos que corren em trilhos, gerando-se assim um fenómeno de popularidade sem comparação no panorama do Trail nacional.

As inscrições abriram às 00h00 de 03 de Novembro, tendo-se esgotado em poucas horas.

Quem deixou para a manhã do dia seguinte a tarefa de se inscrever, deparou-se com a “Loja encerrada” e com a existência de uma lista de espera já com umas centenas de atletas.

Decididamente, se não fosse o colega de equipa, Paulo Amaro a disponibilizar-se para fazer serão até à hora de abertura das inscrições, eu teria tentado a inscrição apenas pela manhã. Ainda para mais, tendo acabado de correr a Maratona do Porto, o corpo pedia uma boa noite de descanso!
Os do PelaEstradaFora - Foto: JoãoLopes Trilhos dos Abutres

Assim, com a inscrição feita, iria correr pela segunda vez nesta prova mítica.

Em 2013 havia participado, tendo então estabelecido o meu record pessoal de tempo a correr, 09h12m.

Há cerca de duas semanas comecei a ficar apreensivo ao ver nas notícias um valente nevão na Serra da Lousã.

Conhecendo já o terreno por onde andaríamos nesta esta prova, julgo que seria um pouco suicida ir para lá com neve ou gelo.

Acresce que tenho uma enorme dificuldade em aquecer os pés e as mãos em tempo frio, problema que não se coloca enquanto dura a corrida, mas quanto paro, ou quando o terreno não permite correr com a intensidade necessária para gerar o calor necessário, começo a ver as pontas dos dedos a perder a cor e a ficar dormentes, tanto das mãos como dos pés!

Havia que ir prevenido com umas luvas suplentes e umas meias de neoprene para o que desse e viesse!

Chegado o dia da prova, toca(m) o(s) despertador(es) às cinco da manhã, e rumo de Leiria a Miranda do Corvo.

Logo à chegada encontro-me com o resto da equipa presente (1 J) que já tinha entretanto recebido um SMS dando conta do adiamento da prova para as 10h00.
Prestes a partir - Foto: JoãoLopes Trilhos dos Abutres

Apreensão…, este adiamento para um atleta de “nove horas” é terrível, porque significa que a última parte da prova será feita de noite.

O tempo em Miranda do Corvo não estava mau, todavia, avistavam-se nuvens negras a cobrir a serra.
Zona da partida. Apesar de não chover no local, via-se a serra coberta por um manto de nuvens negras.

Aproxima-se a hora da partida. A organização presta alguns esclarecimentos acerca das alterações que foram efectuadas à última hora e as respectivas razões.

Finalmente às 10h00 começa a corrida.
Arredores de Miranda do Corvo - Foto: Pedro Sequeira

Início pelas estradas e ruas de Miranda do Corvo, onde começamos a ter noção das razões que levaram ao adiamento da partida. Havia zonas completamente alagadas.

Um parque de lazer estava completamente submerso, vendo-se apenas fora d’água as partes superiores dos baloiços da zona infantil e as traves de duas balizas de um campo de futebol.

No entanto não chovia e a temperatura era amena.

Passado 3 ou 4 quilómetros saímos do alcatrão para iniciar a aventura pelos caminhos da serra.

Alguns caminhos estavam convertidos em autenticas ribeiras de água e lama, pelo que, quem ainda evitava “molhar a meia” cedo desistiu de tal ideia.

A progressão era difícil. Os caminhos alagados e a lama abundante obrigavam a um esforço adicional.
Trilho junto a um ribeiro

Devido ao facto de ter os pés constantemente dentro de água, começo a sentir frio. Ao fim de 2 horas de prova já estava a sentir dificuldades com os pés dormentes e a doer. Comecei a pensar seriamente em trocar de meias.

Entretanto, saímos de zonas de água e lama, adio a decisão das meias, pensando aquecer com a corrida.

Não tardou no entanto a convencer-me de que não valia a pena o sacrifício, uma vez que os pés continuavam frios e dormentes, dando-me a sensação de que tinha dois tijolos dentro das sapatilhas.

Por fim decido parar e fazer a troca de meias. Sentei-me numas escadas de pedra de uma espécie de esplanada numa casa antiga e comecei a tirar as meias de compressão a fim de calçar as de neoprene.

Esta troca demora cerca de 10 minutos. O frio tolhia-me os movimentos, as meias de compressão pareciam feitas de malha de aço e as mãos não tinham força suficiente para a operação…
Cascata digna de se parar para tirar uma foto...

Entretanto, passavam dezenas de atletas que seguiam felizes o seu caminho. Alguns deles que reconhecia de ter ultrapassado pouco antes, à custa de muito esforço.

Tenho a firme convicção de que estas corridas são a feijões, e de que, ando nisto apenas para me divertir; no entanto naqueles minutos em que estive ali parado a ver passar aquela gente toda, sentia como se me estivessem a tirar um rim com uma faca romba!

Bolas! Tanto esforço para nada.

Volto novamente a correr e chego ao primeiro abastecimento.

Pouco depois e começa a verdadeira subida da serra.

O tempo não está mau de todo. À parte de umas chuvadas de granizo, a situação não está má. O impermeável vai atado à cintura a maior parte do tempo.

De facto, a dureza da prova não estava a ser superior à de 2013, sendo até menos técnica em virtude de algumas alterações ao percurso.

Com 24 quilómetros percorridos, perto do ponto mais alto da serra, constato que levo mais de 4 horas de prova e convenço-me de que não vou fazer um tempo melhor do que em 2013. Tenho a clara noção pela experiência anterior, de que as dificuldades não vão diminuir. Se calhar até vão agravar-se com o cair da noite!

Com o aumento de altitude a temperatura cai proporcionalmente. Nada de novo. Recordo-me de em Junho nesta serra, ter rapado um frio dos diabos, no Louzan Trail, quando da passagem pelo Trevim.

Agora, em Janeiro, não seria razoável esperar muito calor…

Bem o resto da prova seguiu sempre no mesmo registo. Frio, uma ou outra chuvada e sobretudo, lama, muita lama.
Paulo Amaro - 7h 14m, 76º lugar da geral

Para quem não conhece o traçado dos Abutres, convém dizer que grande parte da prova é feita à beira de correntes de água, pelos vales descendentes das encostas, em veredas muito estreitas, feitas à base de lages escorregadias, rampas a pique de terra enlameada, que nesta altura do ano são perigosíssimas.

Alguns destes declives são descidos a escorregar tipo “Ski”. Uma das poucas quedas que dei nesta prova foi numa destas descidas. Ao chegar à dita descida não vi maneira de descer de pé firme.

A inclinação era quase vertical, não havia árvores ou cordas para agarrar, a solução era “Ski” ou “Sku”, escolhi a primeira. Posso dizer que até foi divertido! Mas perto do final da ladeira um dos pés deslizou mais rápido do que o outro e o resto da descida foi em queda descontrolada. Felizmente o chão era macio e não houve nada de mais!

Entretanto cai a noite e é preciso ligar o frontal.

Agora não há mesmo margem para brincadeiras. Cada metro é uma potencial queda. A dificuldade técnica não abrandou, antes pelo contrário.

Já nos quilómetros 40, apanhamos um trilho bastante técnico junto a um ribeiro, onde toda a atenção é pouca. O desastre espreita na escuridão. A luz do frontal ao incidir no vapor da respiração forma uma cortina opaca não deixando ver nada à frente. É necessário respirar sempre para o lado, a favor da aragem.

Por fim chega-se ao último abastecimento.

Na breve conversa com um dos elementos da organização que estava neste local, ficamos a saber que temos pela frente um caminho normalmente fácil mas agora tem um bocado de lama. Outro fulano da organização (ou voluntário, não sei) está a rir entredentes e deixa escapar, “pois, um bocadito de lama até à cintura”.

Fico apreensivo. Já estava farto de lama até à ponta dos cabelos…

Pois, parece que era verdade!

A frase “lama até à cintura” pressupunha uma estatura mediana/alta do artista!

Nunca tinha estado num atoleiro daquela dimensão (fez-me lembrar o sistema político nacional).

Ao dar um passo nunca se sabia se “tinha pé” a 10 cm, 20 cm ou se me atolava até à cintura. Inacreditável!

Um último requinte, uma Levada de água interminável, que em 2013 me tinha mexido com os nervos. Agora no entanto, já ia de tal modo em “automático” que nem liguei grande coisa.

Entra-se então na etapa final de alcatrão, que apesar de aborrecido, anunciava o final da epopeia.

À chegada à meta. Com um look "Sem-Abrigo" :)



Finalmente chego ao pavilhão de Miranda do Corvo. Entro, corto a meta,… desligo o relógio,… olho em volta,…dos membros da organização nem uma palavra,… pergunto a alguém se não há um prémio finisher como habitualmente, indicam-me com indiferença uma mesa onde estão os ditos troféus,… enfim,.., recordo agora com saudade outras ocasiões onde os directores de prova cumprimentam os últimos atletas com o mesmo entusiasmo dos primeiros…, mas “prontos”, não se pode ter tudo.


De resto, a Organização esteve bem nos aspectos essenciais, tomando as decisões que se impunham face às condicionantes do terreno e do tempo.


Compreendo a frustração de quem se viu barrado no controlo da Sra. da Piedade de Tábuas, que a meu ver estava demasiado apertado, mas de facto temos de ter consciência de que os Trilhos dos Abutres não é uma prova qualquer e que se poderiam gerar situações muito graves caso as condições climatéricas piorassem com o cair da noite.
Classificação final em 267º lugar com 9h08m.
Partiram 613 atletas, sendo que 277 não passaram do 1º controlo. Chegaram à meta apenas 319 atletas.

Balanço muito positivo para estes Abutres de 2015!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Ano de 2014


O ano de 2014 não foi mau em corridas.

Apesar de ter estado afastado de provas durante os primeiros meses, o balanço acaba por ser positivo.

O afastamento das provas permitiu apesar de tudo, algum descanso a nível muscular, devido ao natural abrandamento de treinos.

Assim, algumas dores “crónicas”  que me acompanhavam há algum tempo, desapareceram durante esse período, os treinos foram rolando sem pressões e de forma natural.

Claro está que, nos somatórios mensais, a diferença nota-se bem!

Após o recomeço ainda deu para fazer:

·         Cinco provas de Trail

·         Duas Meias Maratonas

·         Duas Maratonas

Balanço positivo!

Venha 2015!

Os meus votos de um bom ano e de boas corridas
Meia Maratona da Figueira da Foz
 

Lousã Trail
Trail do Almonda
 
Trilhos de S. Tomé Ferreira-a-Nova, Figueira da Foz - Prova a recordar. Pódio, 3º lugar de escalão !!!
 
Corrida dos Moinhos de Penacova
 
Maratona de Lisboa
 
AX Trail - Trail Serra da Lousã
 
 
Maratona do Porto
 

40ª Meia Maratona da Nazaré - 2014
Resumo de actividades de corrida durante 2014. Inclui treinos e provas.
 
 

Fitas, fitas e mais fitas…


Tenho-me já queixado neste espaço, da falta de fitas de sinalização,sobretudo em provas de trilhos, de não as ver, de estarem mal colocadas, etc., etc..

Hoje, para variar, venho “refilar” pelo excesso de fitas!

Mais um treino da “Equipa” na Serra da Boa Viagem – Figueira da Foz.

Vinte e nove quilómetros em quatro horas, com perto de oitocentos metros de acumulado positivo, com vista à preparação para os Trilhos dos Abutres.

A Serra da Boa Viagem apesar de não ser muito elevada tem bastantes trilhos muito interessantes, para correr, treinar rampas e descidas técnicas.

Quanto à modéstia da altitude máxima, a solução é, subir e descer a serra várias vezes!

O assunto deste “relambório” é no entanto, a quantidade astronómica de fitas espalhadas pela Serra da Boa Viagem!

Estão pela serra toda! Centenas de fitas, de mil cores, de todo o tipo de provas.

Ao que parece, terão sido deixadas por provas de Trail, Btt, Motocross, caminhadas e sabe-se lá mais do quê. Inacreditável!

Está claro que a maioria das organizações está-se perfeitamente nas tintas para a limpeza do percurso após as provas.

Por este andar, tornar-se-á difícil num futuro próximo marcar qualquer percurso em novas provas, tantas são, as fitas já existentes.

Há no entanto excepções no mundo do “Trail”.

Tenho visto algumas organizações que fazem questão de anunciar a conclusão das operações de limpeza e recolha de fitas após as provas, nas suas páginas (sobretudo via Facebook).

Quanto às organizações de provas que não têm esta atenção, é bom que a comecem a ter, para bem de todos!

Boas corridas!









 
A Brigada dos Fiscais das Fitas