Sábado, 28 de Março, quatro da manhã, Leiria,.. , toca o
despertador do telemóvel. Ainda a mão vai pelo ar para o calar quando, toca
também o velhinho Casio, companheiro de há mais de vinte anos, com o seu
besouro estridente que põe os cabelos em pé a uma múmia.
Este despertar a meio da noite não é para tomar nenhum
remédio ou para qualquer outro caso de vida ou morte.
A razão é que, hoje é dia de Ultra Trail do Piódão!
De véspera tinha ficado tudo pronto para sair de casa no
mais curto espaço de tempo.
O encontro com o colega de equipa estava marcado em Souselas,
julgava eu, às 5h30.
Às 5h26 estava no local e ligo-lhe para saber onde andava.
Responde surpreendido que tínhamos combinado às 6h00. Boa! Antes chegar cedo do
que tarde.
Pouco depois das 7h00 chegávamos ao Piódão.
Do alto dos montes viam-se os vales com mantos de nevoeiro
branco, numa atmosfera encantada de paz...
Dorsais levantados, segue-se a habitual rotina destas
ocasiões. Até às 9h00 é uma longa espera.
Dá-se a partida da prova dos 50K. Passado um quarto de hora
partiriam também os atletas dos 23K.
Os primeiros cinco quilómetros correm-se em terreno fácil.
Vou a divertir-me à grande. É mesmo bom correr em trilhos!
Dos cinco quilómetros aos dez é sempre a subir.
Um estradão em zig-zag que nos leva dos 600m aos 1200m com
uma inclinação que dá para correr a trote.., devagarinho.
Nova descida até aos 850m e, como, o que geralmente se desce
tem de se voltar a subir, vai-se novamente até ao cume de um monte atingindo
uma cota de cerca de 1.400m, através de single tracks e estradões.
É definivamente a parte mais espectacular do percurso!
Um enorme estradão ladeado de torres eólicas aponta a Torre da
Serra da Estrela, com a sua neve branca a brilhar.
Estamos no tecto do mundo.
Avista-se toda a orla costeira de um lado e o maciço central
da Serra da Estrela do outro lado, bem como, outras serranias já do lado espanhol.
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| No monte vizinho vê-se a Torre, com alguns restos de neve |
Vou a pensar na expressão “O país profundo”, usada por muita
gente para designar o interior do país!
Inacreditável!
Não admira pois, o choque que têm quando se deparam pela
primeira vez com tamanha grandiosidade!
Adiante!
A certa altura tenho de parar porque vou já há algum tempo
com uma pedra no sapato.
Tinha tentado gerir a situação, tentando com o jeito das
passadas fazer descair a dita pedra para uma zona que não incomodasse. Sem
sucesso.
Enquanto estou parado a sacudir as sapatilhas chega um
atleta perguntando se necessito de alguma coisa.
Coincidência, é o Rui Soeiro, o “dono” do excelente
espaço “Só mais um blog de corrida”!
Retomamos a corrida juntos, mas
cedo fica evidente que o Rui vai de Ferrari e eu sinto-se como um Dois Cavalos com
carvão nas válvulas.
Assim, ele vai andando, e eu,
para disfarçar, faço uma paragem para tirar fotografias J
A certa altura começo a sentir as
pernas pesadas. Recordo-me de pensar que ainda nem a meio da prova estava!
O ritmo baixa de forma natural.
Os bastões, que estou a usar pela
primeira vez, são de uma utilidade preciosa.
O resultado de dois meses de
volume baixo de treino está à vista.
Por outro lado esta prova era
enganadora uma vez que, tendo muitos estradões com um grau de inclinação
ligeiramente abaixo do limiar das forças, e portanto corríveis, iria provocar
ao fim de algumas horas o esvaziamento das reservas energéticas de forma implacável.
No início dos “trinta” surgem as
primeiras cãibras. Já fazia contas à vida…
Com o avançar da distância, os
problemas começavam a ser mais persistentes e, eram claramente motivados pelo
esforço das subidas. Nas raras ocasiões em que o terreno aplanava ou descia
ligeiramente, ficava-se melhor.
Recordo-me de uma longa descida
com um declive impróprio para cardíacos, em que os bastões foram novamente
muito úteis!
Finalmente, após o penúltimo
abastecimento começa a fase final descendente.
Nesta altura já seguia em modo
“Eco”. Tinha como único objectivo chegar ao fim sem mais cãibras.
Felizmente, não voltaram a
atacar, mas em troca, tinha de manter um ritmo bem modesto, não dando para aproveitar
o estradão de seis ou sete quilómetros que levava até ao último abastecimento.
Finalmente, após 9h12m, com o GPS
marcando 52,06 km, corto a linha da meta.
O colega de equipa, Paulo Amaro
está à espera. Tinha feito a mesma distância em 7h18m e, obviamente já tinha
tomado banho, jantado, apreciado as vistas, lido os Lusíadas, etc.
O Paulo Amaro ficou em 21º lugar
da geral e 3º de escalão! Salvou mais uma vez a honra da equipa!
Numa análise a frio tenta-se
perceber as causas de um rendimento menos bem conseguido nesta prova.
·
Volume insuficiente de treino nos últimos dois
meses;
·
Algum entusiasmo inicial, subindo os estradões a correr, originando um esgotamento precoce das reservas energéticas;
·
Alimentação insuficiente nos abastecimentos.
Estes variaram de muito bom em alguns, a sofrível noutros. Todavia, a
deficiente gestão de alimentos foi culpa própria, uma vez que até levava
mantimentos que chegaram intactos à meta.
·
A hidratação também não foi bem gerida. Apesar
de nunca ter faltado a água, esta não terá sido em quantidade suficiente para o esforço
despendido e para a temperatura que já se fazia sentir;
·
O facto de ter apenas quatro horas de sono na
noite anterior não ajuda nada para uma corrida de cinquenta quilómetros e quase
três mil metros desnível positivo;
·
Se não tivesse levado bastões teria tido muita
dificuldade em terminar ainda com luz do dia
Adiante!
O Trail do Piódão vale a pena, é
uma excelente corrida, bem organizada e é numa zona única do país.
Valeu cada metro percorrido!
Aconselho vivamente, todavia,
para a versão de 50 km convém dispor de um treino sólido de base, pois de outro
modo paga-se a factura.
Classificação da "Equipa" do PelaEstradaFora:
Paulo Amaro - 21º Geral, 3º M45, 7h18m
Paulo Oliveira - 135º Geral, 23º M45, 9h12m
Terminaram 226 atletas.
Boas corridas e até à próxima!
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| Foto de Abel Simões |
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| Foto:Desporto INATEL |
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| Foto:Desporto INATEL |
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| Foto:Desporto INATEL |
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| Foto:Desporto INATEL |



































