domingo, 20 de março de 2022

Trail Conímbriga Terras de Sicó – 2022

Foi a minha sétima participação nesta prova da Associação O Mundo da Corrida, sediada em Condeixa, arredores de Coimbra. 
Este ano as distâncias disponíveis eram de 111 milhas, 111 quilómetros e ainda 57, 25 e 15 quilómetros, tendo eu participado nos 57K. 

Antes da partida, em Santiago de Guarda
Antes da partida em Santiago de Guarda - Foto by Kabazuk

As características desta prova são muito do meu agrado, sendo bastante corrível, sem zonas muito técnicas, escaladas e outras cenas mais radicais que andam na moda e que são o cartão de visita de outras organizações. 
Nada contra, muito pelo contrário; até eu já participei duas vezes nos Abutres “grandes” mas, definitivamente, não é o tipo de prova em que de dou bem. Tenho pernas compridas e desajeitadas o que é mau para trilhos técnicos.
 
Santiago de Guarda - Local da partida

No Trail Conímbriga Terras de Sicó dá para correr em oitenta por cento do percurso; com estradões e single tracks à mistura.
 
Primeira grande "parede" da prova

Tinha à partida expetativas muito baixas. 
Andava há duas semanas com problemas derivados de inflamação do nervo ciático ou coisa parecida, o que, provocava dores desde a zona lombar até ao tornozelo, dores do tipo quando batemos com um cotovelo numa esquina! 
A semana anterior à prova foi de brufens e abstinência total de corrida, com o objetivo de criar condições de poder participar. 
Assim foi, embora tenha alinhado à partida consciente que podia ter de abandonar a prova caso as dores voltassem a atacar.

 
O início foi de contenção, partindo na cauda do pelotão, de facto atrás mesmo da cauda, uma vez que não queria estar no meio da confusão, e por outro lado, numa prova desta distância é irrelevante sair de “prego a fundo” porque o importante é gerir as forças desde início. Pelo menos é verdade para “atletas” de nível modesto com eu!


Moinho algures no percurso

A prova acabou por correr bem, resultado de já conhecer o percurso de anos anteriores, somado ao facto de que, a partir de certa altura ter a companhia de outro atleta que ia no mesmo ritmo, fazendo assim os últimos vinte quilómetros na “converseta” ajudando a passar o tempo de forma eficaz.
 
Pelos montes

O resultado foi de oito horas e onze minutos, na 134ª posição de um total de 279 participantes o que ficou dentro das expectativas pessoais.
Para o ano há mais! 
Boas corridas!

A meio da prova - foto pelo colega de equipa, Paulo Amaro, que desta vez não pôde participar

domingo, 28 de novembro de 2021

Maratona do Porto - 2021

Voltaram as maratonas!

Após dois anos de pandemia, um pouco a medo é certo, mas a vida vem voltando ao (novo) normal.

A edição de 2020 da Maratona do Porto não se efetuou por razões óbvias, tendo as inscrições transitado para 2021 sem custos acrescidos.

Paulo Oliveira - Passagem na rotunda da anémona

As últimas provas em que participei tinham sido, a Maratona do Porto e Meia da Nazaré em 2019 e, já em 2020, o Trail do Sicó versão 57K.

Depois foi o que todos já sabemos, com a pandemia a instalar-se, as restrições à vida quotidiana, alterações de hábitos, e obviamente, a suspensão de todas as atividades de corrida amadora.

Paulo Amaro - Passagem na rotunda da anémona

Para alguns tipos de trabalhos, como o meu, foi possível de trabalhar a partir de casa, o que permitiu algum resguardo relativamente ao vírus.

Os primeiros meses foram de um confinamento quase absoluto, seguindo escrupulosamente as orientações da Direção Geral da Saúde, saindo de casa apenas para o essencial, ficando assim excluída toda a corrida de rua.

Já perto do final

Felizmente, devido a ter uma passadeira na garagem foi possível continuar a correr regularmente, o que, aliado às mais de duas horas diárias poupadas em viagens para o local de trabalho, levou a que cheguei ao final de 2020 terminou com a maior quantidade de quilómetros desde que comecei a correr.

Assim, desde que se começou a vislumbrar a possibilidade da realização da Maratona do Porto, tentei adequar um pouco o treino para poder enfrentar o desafio com alguma tranquilidade, todavia vim a constatar que o grande volume de quilómetros não me tinha conferido maior velocidade, antes pelo contrário.

Paulo Amaro - Já perto do final

De facto, ao longo deste ano e meio habituei-me a correr confortável, sempre de fones nos ouvidos, desfrutando ao máximo do prazer da corrida, relegando para plano secundário qualquer espírito de sacrifício ou o esforço que normalmente me dispunha a sofrer para me ir preparando para as provas.

Assim, estava perfeitamente mentalizado que iria para a Maratona do Porto mais lento do que o costume, embora confiante o suficiente para correr a distância sem percalços de maior. O tempo final seria o que fosse, sem preocupações de bater recordes, até porque a idade continua a avançar (diria que ainda bem!) e é natural que se perca alguma velocidade pelo caminho.

A edição da maratona de 2021 teve como principal diferença o facto de não se poder atravessar a Ponte Luis I devido a trabalhos de conservação na mesma, suprimindo-se assim o percurso de Gaia à Afurada, o que, honestamente, nunca me deixou grandes saudades devido ao piso de paralelos daquela parte do percurso.

Foto com efeito "Forrest Gump"😀

A solução encontrada para colmatar esta perda de distância foi prolongar a norte, desde Leixões até Leça da Palmeira e, na parte junto ao rio Douro, a nascente, prolongar também um pouco até à zona de Campanhã. Perdeu-se um pouco em beleza, mas ganhou-se em qualidade de piso, diria eu.

A corrida propriamente dita desenrolou-se sem sobressaltos, controlando o ritmo desde início, uma das vantagens de ser a oitava vez consecutiva nesta Maratona do Porto, o que permite gerir a cada momento o esforço em função do que sabemos ainda faltar.

Ao longo de quase toda a corrida, estive sempre perto do colega de equipa, Paulo Amaro, ora, um pouco atrás ou um pouco à frente, sempre mais ou menos no mesmo ritmo.

Paulo Amaro

No relógio parametrizei o parceiro virtual para as 3h30, controlando a cada momento a que distância e tempo me encontrava desse objetivo. Esta funcionalidade é característica de relógios mais antigos e tem de ser interpretada com as devidas reservas visto ser uma projeção puramente aritmética, não tendo em conta as características do percurso em termos de subidas e descidas, nem uma natural quebra de ritmo ao longo da distância. De qualquer modo, não se pode exigir muito a um Garmin 910xt usado, comprado no Ebay por menos de 30€!

Terminei a maratona com o tempo de 3h 29m 41, não sem ter no entanto, de “desfazer” umas cãibras que deram o ar da sua graça ao quilómetro 40.

Paulo Oliveira - Tempos de passagem e tempo final

O colega de equipa, Paulo Amaro, começou forte mas a partir de certa altura reduziu o ritmo e acabou por terminar com 3h 41m 35, o que não é normal para quem me dá mais de uma hora de avanço em trails de semelhantes distâncias!

Paulo Amaro - Tempos de passagem e tempo final

Boas corridas e até breve!


segunda-feira, 23 de março de 2020

Trail de Conímbriga Terras de Sicó



Conímbriga é uma das poucas cidades romanas antigas que chegou até aos dias de hoje num estado “original”, ou pelo menos, na forma de ruínas-museu, por ter estado soterrada quase durante mil anos.
Os vestígios da cidade começaram a aflorar e a serem conhecidos ainda no século 19, todavia só no século 20 foram organizadas escavações e estudos de carácter científico que revelaram toda a extensão das construções antes escondidas debaixo de terras.
É em Condeixa-a-Nova, vila a cerca de dois quilómetros de Conímbriga, que o Trail com o mesmo nome é organizado há cerca de dez anos pela associação “O Mundo da Corrida”.
Referi em relatos de participações anteriores que esta organização "O Mundo da Corrida" tem a cabeça no sítio, não se deixando levar por modas que, nos últimos anos transformaram provas de trail em autênticos treinos de Comandos ou de Rangers. Não tenho nada contra isso, todavia não contem comigo para “apanhar porrada de criar bicho” e pagar ainda por cima! (não me esqueço das “tareias” apanhadas na vizinha Serra da Lousã, onde ora, era andar nove horas a escorregar à beira de cascatas gelado até aos ossos, ora era, assar durante dez horas e meia num dos dias mais quentes de 2015…)
Ainda assim, o Trail de Conímbriga Terras de Sicó tem uma versão de 111 quilómetros onde os mais treinados (ou sem juízo) podem extravasar as suas energias.
O PelaEstradaFora Paulo Amaro - Photo by Kabazuk
A “equipa” do PelaEstradaFora contentou-se com a versão “pequena” de 57 quilómetros sendo que, na parte que me toca, chega e sobra para me encher as medidas e para não querer ouvir sequer falar de trails durante uns tempos 😊
O PelaEstradaFora Paulo Oliveira - Photo by Kabazuk
Nesta versão de 2020, a prova intermédia de 50k+ teve a sua partida em Santiago da Guarda, uma pequena localidade na zona de Ansião, seguindo depois na direção do percurso dos anos anteriores, com que, a partir do quilómetro nove teve a maior parte em comum.
O transporte para a zona da partida foi feito de autocarro, à imagem de 2018 e 2019.
O PelaEstradaFora Paulo Amaro
O tempo estava chuvoso e frio, desagradável mesmo, diria eu.
Nos preparativos em Condeixa, antes de embarcar no autocarro, tinha-me esquecido de um buff tendo apenas um boné para proteger a cabeça.
Tal esquecimento deixou-me deveras aborrecido; o vento nos ouvidos é uma coisa que detesto solenemente!
O PelaEstradaFora Paulo Oliveira
À hora marcada deu-se a partida, ainda debaixo de alguma chuva, que no entanto ia diminuindo gradualmente. Mais tarde parou de chover completamente tendo o tempo ficado muito bom mesmo, sem frio nem calor.
Fase inicial da prova, muita água nos caminhos!
Já sabendo com que contar, ia gerindo o esforço com alguma contenção, uma vez que lá para o final costumam aparecer uns trilhos muito técnicos onde tradicionalmente tenho algumas dificuldades, por isso, convém chegar lá com algumas reservas de energia…
A gestão da hidratação é feita criteriosamente, levando duas garrafas na parte frontal da mochila sendo sempre atestadas nos abastecimentos.
Fase inicial - Atingindo um topo de um monte qualquer...
 
Logo no primeiro abastecimento experimento uma água gaseificada com aroma de limão e resolvo encher uma das garrafas com essa água e outra com coca-cola.
Não fico surpreendido com a qualidade dos abastecimentos.
À imagem das edições anteriores, os abastecimentos são de qualidade superlativa dando vontade de mandar a prova às urtigas e aproveitar tudo o que está à disposição.
Ao quilómetro nove - a parede da prova!
Também nos abastecimentos tenho a maior contenção, optando apenas por coisas simples e que a que estou habituado, tipo marmelada, bananas, batatas fritas (poucas) e um ou outro quadrado de chocolate. Em provas tão longas como esta, o sistema digestivo começa a acusar o esforço e podem ocorrer alterações indesejadas.
As paragens nos abastecimentos quebram sempre o ritmo, pelo que o recomeço é sempre penoso. Tento sempre não demorar mais do que três ou quatro minutos em cada um.
No recomeço após o segundo ou terceiro abastecimento, sigo em esforço, tentando entrar no ritmo, quando de repente dá-se um estrondo do lado direito do peito, quase semelhante a um tiro e eu penso: “olha, o coração já era!”. Mas não; tinha sido apenas a garrafa do lado direito carregada com coca-cola, que tinha ganho pressão com os solavancos e tinha disparado pelo bocal com um estrondo. Nunca pensei que o aumento da pressão de uma inocente coca-cola provocasse um efeito tão sonoro!
A corrida ia seguindo por montes e vales, privilegiando sempre carreiros em detrimento de estradões, o que evidencia um trabalho formidável da organização desta prova.
O PelaEstradaFora Paulo Amaro - Photo by Fotojotapê
Também à semelhança de edições anteriores, a partir de certa altura o percurso da prova de 57 quilómetros é coincidente com o percurso dos 111 quilómetros, pelo que vamos constantemente alcançando atletas da prova grande, o que para estes deve ser bom em termos anímicos, porque damos sempre alguma palavras de incentivo quando passamos por eles.
Para os atletas da “prova pequena” é bom e mau ao mesmo tempo! Passo a explicar.
Por um lado é bom porque há sempre contacto visual com outros atletas, uma vez que a fusão dos percursos duplica a quantidade de atletas na mesma zona do percurso. Ainda assim, a certa altura andei cerca de meia hora sem ver ninguém, o que é meio caminho para me perder!
O PelaEstradaFora Paulo Oliveira -Photo by Fotojotapê
O lado negativo de irmos mais rápidos do que os atletas dos 111k é o facto de que, com o cansaço, ao vermos alguém mais lento à frente, o subconsciente manda-nos “levantar o pé” porque "aquele" lá à frente também vai devagar.
Puro engano! “Esses” que vão mais lentos são melhores do que nós, e vão àquela velocidade porque já têm mais cinquenta quilómetros do que nós nas pernas e andam ali desde a meia noite!
Pelo vale de canhão de poios
Forço então sempre o ritmo com a estratégia mental de me convencer que tenho de ir mais rápido do que “esses” dos dorsais azuis, porque seria uma vergonha não o a fazer!
Algures na Serra de Sicó
Por fim chego à tal zona técnica que há dois anos me trouxe as maiores dificuldades: o Trilho da Cascata!
O Trilho das Cascatas tem cerca de 2 quilómetros, o que relativizando, é 20 vezes menos do que os Abutres, comparação possível devido às semelhanças.
De qualquer modo, chegar a um trilho destes, já com 50 quilómetros nas pernas exige um esforço acrescido, numa altura em que já só pensamos em terminar a prova e tomar um banho quente!
Nesta altura já venho há mais de meia hora sem ver ninguém.
Esforço-me por prestar a maior atenção às fitas e bandeirinhas de sinalização a fim de não me enganar no caminho.

Já no Trilho da Cascata aparecem as primeiras cãibras devido aos movimentos mais amplos e repentinos exigidos pela tecnicidade do trilho.
Começo a ouvir atrás de mim vozes ao longe e penso com desgosto que vou novamente perder muitos lugares, tal como nos anos anteriores, nesta mesma zona da prova…
Assim é de facto! Quando um grupo de atletas me alcança, desvio-me para os deixar passar. Não vale a pena arriscar. O sacrifício para terminar a prova já vai bastar, não vale a pena arriscar uma queda feia nesta zona.
Trilho das Buracas de Casmilo
A cascata que dá o nome ao trilho está seca mais uma vez, no entanto, os trilhos rochosos estão perigosamente escorregadios, exigindo a maior atenção e o máximo cuidado.
Mais uma vez, perco mais de 15 lugares nestes dois quilómetros do Trilho da Cascata.
Quando saio do vale da cascata, por uma “subida de cão” por sinal, sinto que tenho a prova feita apesar de faltarem ainda três ou quatro quilómetros!
Passagem pelo exterior das ruínas de Conímbriga
Atinge-se finalmente a civilização, com a passagem pelo exterior das ruínas de Conímbriga (nos anos anteriores passámos pelo interior das mesmas…), depois vem Condeixa-a-Velha e finalmente Condeixa-a-Nova ao fim de 8h12 de prova.
O colega de equipa, Paulo Amaro, já tinha chegado há quase uma hora, o que também não me surpreendeu!
Enfim, mais um dia bem passado e uma dor de pernas ao longo da semana seguinte 😊
A classificação que interessa:
  • Posição   Nome             Tempo
  • 61        Paulo Amaro      7:21:06
  • 106       Paulo Oliveira   8:12:06
Fiquem bem e boas corridas! 
Finalmente no descanso!