Os Trilhos dos Abutres é talvez a prova mais desejada do Trail nacional. Tornou-se quase uma Meca
nesta modalidade.
 |
Dorsal 608 - Ultra Trilhos dos Abutres 2015 |
O fenómeno é interessante, junta a espectacularidade da
Serra da Lousã com um grau de dureza superior à maioria das outras provas, o
que, constitui um desafio para quem quer ir um pouco além nas suas conquistas
desportivas.
Depois é um pouco de “passa-a-palavra” e uma ideia de
“quanto-pior-melhor”, típica desses Locos
que corren em trilhos, gerando-se assim um fenómeno de popularidade sem
comparação no panorama do Trail nacional.
As inscrições abriram às 00h00 de 03 de Novembro, tendo-se
esgotado em poucas horas.
Quem deixou para a manhã do dia seguinte a tarefa de se
inscrever, deparou-se com a “Loja encerrada” e com a existência de uma lista de
espera já com umas centenas de atletas.
Decididamente, se não fosse o colega de equipa, Paulo Amaro
a disponibilizar-se para fazer serão até à hora de abertura das inscrições, eu
teria tentado a inscrição apenas pela manhã. Ainda para mais, tendo acabado de
correr a Maratona do Porto, o corpo pedia uma boa noite de descanso!
 |
Os do PelaEstradaFora - Foto: JoãoLopes Trilhos dos Abutres |
Assim, com a inscrição feita, iria correr pela segunda vez
nesta prova mítica.
Em 2013 havia participado, tendo então estabelecido o meu record
pessoal de tempo a correr, 09h12m.
Há cerca de duas semanas comecei a ficar apreensivo ao ver
nas notícias um valente nevão na Serra da Lousã.
Conhecendo já o terreno por onde andaríamos nesta esta prova,
julgo que seria um pouco suicida ir para lá com neve ou gelo.
Acresce que tenho uma enorme dificuldade em aquecer os pés e
as mãos em tempo frio, problema que não se coloca enquanto dura a corrida, mas
quanto paro, ou quando o terreno não permite correr com a intensidade
necessária para gerar o calor necessário, começo a ver as pontas dos dedos a
perder a cor e a ficar dormentes, tanto das mãos como dos pés!
Havia que ir prevenido com umas luvas suplentes e umas meias
de neoprene para o que desse e viesse!
Chegado o dia da prova, toca(m) o(s) despertador(es) às cinco
da manhã, e rumo de Leiria a Miranda do Corvo.
Logo à chegada encontro-me com o resto da equipa presente (1 J) que já tinha
entretanto recebido um SMS dando conta do adiamento da prova para as 10h00.
 |
Prestes a partir - Foto: JoãoLopes Trilhos dos Abutres |
Apreensão…, este adiamento para um atleta de “nove horas” é
terrível, porque significa que a última parte da prova será feita de noite.
O tempo em Miranda do Corvo não estava mau, todavia,
avistavam-se nuvens negras a cobrir a serra.
 |
Zona da partida. Apesar de não chover no local, via-se a serra coberta por um manto de nuvens negras. |
Aproxima-se a hora da partida. A organização presta alguns
esclarecimentos acerca das alterações que foram efectuadas à última hora e as
respectivas razões.
Finalmente às 10h00 começa a corrida.
 |
Arredores de Miranda do Corvo - Foto: Pedro Sequeira |
Início pelas estradas e ruas de Miranda do Corvo, onde
começamos a ter noção das razões que levaram ao adiamento da partida. Havia
zonas completamente alagadas.
Um parque de lazer estava completamente submerso, vendo-se
apenas fora d’água as partes superiores dos baloiços da zona infantil e as
traves de duas balizas de um campo de futebol.
No entanto não chovia e a temperatura era amena.
Passado 3 ou 4 quilómetros saímos do alcatrão para iniciar a
aventura pelos caminhos da serra.
Alguns caminhos estavam convertidos em autenticas ribeiras
de água e lama, pelo que, quem ainda evitava “molhar a meia” cedo desistiu de
tal ideia.
A progressão era difícil. Os caminhos alagados e a lama
abundante obrigavam a um esforço adicional.
 |
Trilho junto a um ribeiro |
Devido ao facto de ter os pés constantemente dentro de água,
começo a sentir frio. Ao fim de 2 horas de prova já estava a sentir
dificuldades com os pés dormentes e a doer. Comecei a pensar seriamente em
trocar de meias.
Entretanto, saímos de zonas de água e lama, adio a decisão das
meias, pensando aquecer com a corrida.
Não tardou no entanto a convencer-me de que não valia a pena
o sacrifício, uma vez que os pés continuavam frios e dormentes, dando-me a
sensação de que tinha dois tijolos dentro das sapatilhas.
Por fim decido parar e fazer a troca de meias. Sentei-me numas
escadas de pedra de uma espécie de esplanada numa casa antiga e comecei a
tirar as meias de compressão a fim de calçar as de neoprene.
Esta troca demora cerca de 10 minutos. O frio tolhia-me os
movimentos, as meias de compressão pareciam feitas de malha de aço e as mãos
não tinham força suficiente para a operação…
 |
Cascata digna de se parar para tirar uma foto... |
Entretanto, passavam dezenas de atletas que seguiam felizes
o seu caminho. Alguns deles que reconhecia de ter ultrapassado pouco antes, à
custa de muito esforço.
Tenho a firme convicção de que estas corridas são a feijões, e
de que, ando nisto apenas para me divertir; no entanto naqueles minutos em que
estive ali parado a ver passar aquela gente toda, sentia como se me estivessem
a tirar um rim com uma faca romba!
Bolas! Tanto esforço para nada.
Volto novamente a correr e chego ao primeiro abastecimento.
Pouco depois e começa a verdadeira subida da serra.
O tempo não está mau de todo. À parte de umas chuvadas de
granizo, a situação não está má. O impermeável vai atado à cintura a maior
parte do tempo.
De facto, a dureza da prova não estava a ser superior à de
2013, sendo até menos técnica em virtude de algumas alterações ao percurso.
Com 24 quilómetros percorridos, perto do ponto mais alto da serra,
constato que levo mais de 4 horas de prova e convenço-me de que não vou fazer
um tempo melhor do que em 2013. Tenho a clara noção pela experiência anterior,
de que as dificuldades não vão diminuir. Se calhar até vão agravar-se com o
cair da noite!
Com o aumento de altitude a temperatura cai proporcionalmente.
Nada de novo. Recordo-me de em Junho nesta serra, ter rapado um frio dos diabos, no Louzan Trail, quando da passagem pelo Trevim.
Agora, em Janeiro, não seria razoável esperar muito calor…
Bem o resto da prova seguiu sempre no mesmo registo. Frio, uma
ou outra chuvada e sobretudo, lama, muita lama.
 |
Paulo Amaro - 7h 14m, 76º lugar da geral |
Para quem não conhece o traçado dos Abutres, convém dizer
que grande parte da prova é feita à beira de correntes de água, pelos vales
descendentes das encostas, em veredas muito estreitas, feitas à base de lages
escorregadias, rampas a pique de terra enlameada, que nesta altura do ano são
perigosíssimas.
Alguns destes declives são descidos a escorregar tipo “Ski”. Uma
das poucas quedas que dei nesta prova foi numa destas descidas. Ao chegar à
dita descida não vi maneira de descer de pé firme.
A inclinação era quase vertical, não havia árvores ou cordas
para agarrar, a solução era “Ski” ou “Sku”, escolhi a primeira. Posso dizer que
até foi divertido! Mas perto do final da ladeira um dos pés deslizou mais rápido
do que o outro e o resto da descida foi em queda descontrolada. Felizmente o
chão era macio e não houve nada de mais!
Entretanto cai a noite e é preciso ligar o frontal.
Agora não há mesmo margem para brincadeiras. Cada metro é
uma potencial queda. A dificuldade técnica não abrandou, antes pelo contrário.
Já nos quilómetros 40, apanhamos um trilho bastante técnico
junto a um ribeiro, onde toda a atenção é pouca. O desastre espreita na
escuridão. A luz do frontal ao incidir no vapor da respiração forma uma cortina
opaca não deixando ver nada à frente. É necessário respirar sempre para o lado,
a favor da aragem.
Por fim chega-se ao último abastecimento.
Na breve conversa com um dos elementos da organização que
estava neste local, ficamos a saber que temos pela frente um caminho
normalmente fácil mas agora tem um bocado de lama. Outro fulano da organização
(ou voluntário, não sei) está a rir entredentes e deixa escapar, “pois, um
bocadito de lama até à cintura”.
Fico apreensivo. Já estava farto de lama até à ponta dos
cabelos…
Pois, parece que era verdade!
A frase “lama até à cintura” pressupunha uma estatura mediana/alta do artista!
Nunca tinha estado num atoleiro daquela dimensão (fez-me
lembrar o sistema político nacional).
Ao dar um passo nunca se sabia se “tinha pé” a 10 cm, 20
cm ou se me atolava até à cintura. Inacreditável!
Um último requinte, uma Levada de água interminável, que em
2013 me tinha mexido com os nervos. Agora no entanto, já ia de tal modo em “automático”
que nem liguei grande coisa.
Entra-se então na etapa final de alcatrão, que apesar de
aborrecido, anunciava o final da epopeia.
 |
À chegada à meta. Com um look "Sem-Abrigo" :) |
Finalmente chego ao pavilhão de Miranda do Corvo. Entro,
corto a meta,… desligo o relógio,… olho em volta,…dos membros da organização
nem uma palavra,… pergunto a alguém se não há um prémio finisher como
habitualmente, indicam-me com indiferença uma mesa onde estão os ditos troféus,… enfim,..,
recordo agora com saudade outras ocasiões onde os directores de prova
cumprimentam os últimos atletas com o mesmo entusiasmo dos primeiros…, mas
“prontos”, não se pode ter tudo.
De resto, a Organização esteve bem nos aspectos essenciais,
tomando as decisões que se impunham face às condicionantes do terreno e do
tempo.
Compreendo a frustração de quem se viu barrado no controlo
da Sra. da Piedade de Tábuas, que a meu ver estava demasiado apertado, mas de
facto temos de ter consciência de que os Trilhos dos Abutres não é uma prova qualquer
e que se poderiam gerar situações muito graves caso as condições climatéricas
piorassem com o cair da noite.
Classificação final em 267º lugar com 9h08m.
Partiram 613 atletas, sendo que 277 não passaram do 1º
controlo. Chegaram à meta apenas 319 atletas.
Balanço muito positivo para estes Abutres de 2015!