segunda-feira, 23 de março de 2020

Trail de Conímbriga Terras de Sicó



Conímbriga é uma das poucas cidades romanas antigas que chegou até aos dias de hoje num estado “original”, ou pelo menos, na forma de ruínas-museu, por ter estado soterrada quase durante mil anos.
Os vestígios da cidade começaram a aflorar e a serem conhecidos ainda no século 19, todavia só no século 20 foram organizadas escavações e estudos de carácter científico que revelaram toda a extensão das construções antes escondidas debaixo de terras.
É em Condeixa-a-Nova, vila a cerca de dois quilómetros de Conímbriga, que o Trail com o mesmo nome é organizado há cerca de dez anos pela associação “O Mundo da Corrida”.
Referi em relatos de participações anteriores que esta organização "O Mundo da Corrida" tem a cabeça no sítio, não se deixando levar por modas que, nos últimos anos transformaram provas de trail em autênticos treinos de Comandos ou de Rangers. Não tenho nada contra isso, todavia não contem comigo para “apanhar porrada de criar bicho” e pagar ainda por cima! (não me esqueço das “tareias” apanhadas na vizinha Serra da Lousã, onde ora, era andar nove horas a escorregar à beira de cascatas gelado até aos ossos, ora era, assar durante dez horas e meia num dos dias mais quentes de 2015…)
Ainda assim, o Trail de Conímbriga Terras de Sicó tem uma versão de 111 quilómetros onde os mais treinados (ou sem juízo) podem extravasar as suas energias.
O PelaEstradaFora Paulo Amaro - Photo by Kabazuk
A “equipa” do PelaEstradaFora contentou-se com a versão “pequena” de 57 quilómetros sendo que, na parte que me toca, chega e sobra para me encher as medidas e para não querer ouvir sequer falar de trails durante uns tempos 😊
O PelaEstradaFora Paulo Oliveira - Photo by Kabazuk
Nesta versão de 2020, a prova intermédia de 50k+ teve a sua partida em Santiago da Guarda, uma pequena localidade na zona de Ansião, seguindo depois na direção do percurso dos anos anteriores, com que, a partir do quilómetro nove teve a maior parte em comum.
O transporte para a zona da partida foi feito de autocarro, à imagem de 2018 e 2019.
O PelaEstradaFora Paulo Amaro
O tempo estava chuvoso e frio, desagradável mesmo, diria eu.
Nos preparativos em Condeixa, antes de embarcar no autocarro, tinha-me esquecido de um buff tendo apenas um boné para proteger a cabeça.
Tal esquecimento deixou-me deveras aborrecido; o vento nos ouvidos é uma coisa que detesto solenemente!
O PelaEstradaFora Paulo Oliveira
À hora marcada deu-se a partida, ainda debaixo de alguma chuva, que no entanto ia diminuindo gradualmente. Mais tarde parou de chover completamente tendo o tempo ficado muito bom mesmo, sem frio nem calor.
Fase inicial da prova, muita água nos caminhos!
Já sabendo com que contar, ia gerindo o esforço com alguma contenção, uma vez que lá para o final costumam aparecer uns trilhos muito técnicos onde tradicionalmente tenho algumas dificuldades, por isso, convém chegar lá com algumas reservas de energia…
A gestão da hidratação é feita criteriosamente, levando duas garrafas na parte frontal da mochila sendo sempre atestadas nos abastecimentos.
Fase inicial - Atingindo um topo de um monte qualquer...
 
Logo no primeiro abastecimento experimento uma água gaseificada com aroma de limão e resolvo encher uma das garrafas com essa água e outra com coca-cola.
Não fico surpreendido com a qualidade dos abastecimentos.
À imagem das edições anteriores, os abastecimentos são de qualidade superlativa dando vontade de mandar a prova às urtigas e aproveitar tudo o que está à disposição.
Ao quilómetro nove - a parede da prova!
Também nos abastecimentos tenho a maior contenção, optando apenas por coisas simples e que a que estou habituado, tipo marmelada, bananas, batatas fritas (poucas) e um ou outro quadrado de chocolate. Em provas tão longas como esta, o sistema digestivo começa a acusar o esforço e podem ocorrer alterações indesejadas.
As paragens nos abastecimentos quebram sempre o ritmo, pelo que o recomeço é sempre penoso. Tento sempre não demorar mais do que três ou quatro minutos em cada um.
No recomeço após o segundo ou terceiro abastecimento, sigo em esforço, tentando entrar no ritmo, quando de repente dá-se um estrondo do lado direito do peito, quase semelhante a um tiro e eu penso: “olha, o coração já era!”. Mas não; tinha sido apenas a garrafa do lado direito carregada com coca-cola, que tinha ganho pressão com os solavancos e tinha disparado pelo bocal com um estrondo. Nunca pensei que o aumento da pressão de uma inocente coca-cola provocasse um efeito tão sonoro!
A corrida ia seguindo por montes e vales, privilegiando sempre carreiros em detrimento de estradões, o que evidencia um trabalho formidável da organização desta prova.
O PelaEstradaFora Paulo Amaro - Photo by Fotojotapê
Também à semelhança de edições anteriores, o percurso da prova de 57 quilómetros é coincidente com o percurso dos 111 quilómetros, pelo que vamos constantemente alcançando atletas da prova grande, o que para estes deve ser bom em termos anímicos, porque damos sempre alguma palavras de incentivo quando passamos por eles.
Para os atletas da “prova pequena” é bom e mau ao mesmo tempo! Passo a explicar.
Por um lado é bom porque há sempre contacto visual com outros atletas, uma vez que a fusão dos percursos duplica a quantidade de atletas na mesma zona do percurso. Ainda assim, a certa altura andei cerca de meia hora sem ver ninguém, o que é meio caminho para me perder!
O PelaEstradaFora Paulo Oliveira -Photo by Fotojotapê
O lado negativo de irmos mais rápidos do que os atletas dos 111k é o facto de que, com o cansaço, ao vermos alguém mais lento à frente, o subconsciente manda-nos “levantar o pé” porque "aquele" lá à frente também vai devagar.
Puro engano! “Esses” que vão mais lentos são melhores do que nós, e vão àquela velocidade porque já têm mais cinquenta quilómetros do que nós nas pernas e andam ali desde a meia noite!
Pelo vale de canhão de poios
Forço então sempre o ritmo com a estratégia mental de me convencer que tenho de ir mais rápido do que “esses” dos dorsais azuis, porque seria uma vergonha não o a fazer!
Algures na Serra de Sicó
Por fim chego à tal zona técnica que há dois anos me trouxe as maiores dificuldades: o Trilho da Cascata!
O Trilho das Cascatas tem cerca de 2 quilómetros, o que relativizando, é 20 vezes menos do que os Abutres, comparação possível devido às semelhanças.
De qualquer modo, chegar a um trilho destes, já com 50 quilómetros nas pernas exige um esforço acrescido, numa altura em que já só pensamos em terminar a prova e tomar um banho quente!
Nesta altura já venho há mais de meia hora sem ver ninguém.
Esforço-me por prestar a maior atenção às fitas e bandeirinhas de sinalização a fim de não me enganar no caminho.

Já no Trilho da Cascata aparecem as primeiras cãibras devido aos movimentos mais amplos e repentinos exigidos pela tecnicidade do trilho.
Começo a ouvir atrás de mim vozes ao longe e penso com desgosto que vou novamente perder muitos lugares, tal como nos anos anteriores, nesta mesma zona da prova…
Assim é de facto! Quando um grupo de atletas me alcança, desvio-me para os deixar passar. Não vale a pena arriscar. O sacrifício para terminar a prova já vai bastar, não vale a pena arriscar uma queda feia nesta zona.
Trilho das Buracas de Casmilo
A cascata que dá o nome ao trilho está seca mais uma vez, no entanto, os trilhos rochosos estão perigosamente escorregadios, exigindo a maior atenção e o máximo cuidado.
Mais uma vez, perco mais de 15 lugares nestes dois quilómetros do Trilho da Cascata.
Quando saio do vale da cascata, por uma “subida de cão” por sinal, sinto que tenho a prova feita apesar de faltarem ainda três ou quatro quilómetros!
Passagem pelo exterior das ruínas de Conímbriga
Atinge-se finalmente a civilização, com a passagem pelo exterior das ruínas de Conímbriga (nos anos anteriores passámos pelo interior das mesmas…), depois vem Condeixa-a-Velha e finalmente Condeixa-a-Nova ao fim de 8h12 de prova.
O colega de equipa, Paulo Amaro, já tinha chegado há quase uma hora, o que também não me surpreendeu!
Enfim, mais um dia bem passado e uma dor de pernas ao longo da semana seguinte 😊
A classificação que interessa:
  • Posição   Nome             Tempo
  • 61        Paulo Amaro      7:21:06
  • 106       Paulo Oliveira   8:12:06
Fiquem bem e boas corridas! 
Finalmente no descanso!

domingo, 26 de janeiro de 2020

São Silvestre do PelaEstradaFora

Na cascata da Fórnea
Por alturas do final de cada ano, "a liga dos amigos do PelaEstradaFora" costuma reunir-se, não para um jantar, mas sim para uma corrida.
Com exceção do ano passado, esta tradição era geralmente cumprida com uma corrida à beira mar, uma vez que é do agrado de qualquer um de nós, e que, apesar de ser uma atividade típica de Verão, adquire sensações especiais quando feita no inverno.

Para este ano (2019), tendo em conta as datas disponíveis e o mau estado do tempo na costa marítima, surgiu a ideia de fazer algo diferente.
A primeira ideia foi de fazer a Ecovia do Dão, desde Santa Comba a Viseu e regresso, de bicicleta, numa distância de cerca de 100 km.
Todavia, já nem sei porquê, a ideia não foi avante tendo-se avançado para um plano "B" que consistia numa corrida em trilhos na zona de Alvados, Porto de Mós, num Sábado, o de 21 de Dezembro. 
O temporal dos dias anteriores não augurava grandes condições para esta volta, deixando no ar mais incertezas do que certezas. O Samuel e o Paulo Amaro tinham de fazer mais de 100 km até Alvados não estando garantido que seria possível fazer a corrida. Mas como esta malta tem um espírito positivo, às 9h00 estavam em Leiria a fim de seguirmos juntos para Alvados.
O Samuel no alto da Fórnea
Pelo caminho íamos comentando que já temos idade para ter juízo, mas acho que já não há solução 😀
Estacionados no centro da aldeia, partimos à aventura.
O primeiro objetivo é a cascata da Fornea, que devido à chuva dos dias anteriores estava na sua plena força.
O destino seguinte era o trilho dos fósseis.
Um fóssil de Amonite no trilho com o mesmo nome
Este trilho fica a cerca de 3 quilómetros do centro de Alvados, sendo conhecido por ter marcado na rocha calcária uma grande quantidade de fósseis de Amonites. 
Outro fóssil de Amonite
Subindo este trilho seguimos rumo à zona poente da Fórnea, um fenómeno geológico monumental em forma de anfiteatro, de uma imponência formidável!
No alto do monte fazia-se sentir um vento furioso com alguma chuva à mistura.
Fotografia "tipo selfie" no alto da Fórnea
Contornamos a Fórnea seguindo para a encosta norte, zona conhecida como Costa de Alvados, onde seguimos pelo(s) trilhos existentes ao longo da cota alta.
Na Costa de Alvados
Ainda pensámos ir à Praia Jurássica de S.  Bento mas fazia-se já tarde, o vento no topo dos montes estava insuportável e ainda havia muito caminho a percorrer, pelo que ficou para uma próxima aventura!
Seguimos contornando o enorme vale de Alvados, descendo depois pelo monte do Castelejo, do conhecido Trail do Castelejo, até ao centro de Alvados.

E assim foi mais uma São Silvestre pirata do PelaEstradaFora, haja forças e vontade para renovar a tradição em 2020!
Boas corridas!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Meia Maratona da Nazaré



No passado dia 10 de Novembro decorreu mais uma Meia Maratona da Nazaré, a mais antiga Meia Maratona popular de Portugal.
A tradição, no entanto, já não é o que era e, cada ano que passa, vê-se a prova a definhar sendo ultrapassada em dimensão e qualidade por muitas outras provas com inferiores pergaminhos!
É pena.
Gosto desta meia maratona. Não tem explicação, por ter um traçado pouco amigável, pelo facto de a organização viver de louros passados não inovando, publicitando ou mesmo corrigindo erros crassos que arruínam quaisquer ambições de os atletas ali fazerem bons tempos…
Refiro-me concretamente ao facto de não haver zonas de partida por tempos objetivo.
Mais uma vez este ano a partida foi uma tremenda confusão, com largas dezenas de caminheiros a posicionar-se na frente da partida (o evento compreende a meia maratona, uma corrida de 10 quilómetros e uma caminhada) originando  dificuldade dos atletas da Meia e dos 10K em ultrapassar, com encontrões, cotoveladas, pés pisados e outras situações menos boas que podem estragar a corrida a quem levar a coisa mais a sério.
Por motivos de obras no edifício onde  se efetuava a entrega dos dorsais, também já tinha havido problemas, com grande filas e tempos de espera que não eram normais nesta prova. Ressaltava alguma desorganização, estando a “tenda” entregue aos voluntários que na ânsia de fazer bem e depressa, acabavam por não dar fluência à” freguesia” e onde um pouco de supervisão de um membro sénior resolveria facilmente a questão. Chamado à razão um dos membros da organização que por lá cirandava, um conhecido senhor muito alto, de bigode e cabelo encaracolado, respondeu simplesmente que  já faziam aquilo há mais de quarenta anos e se estávamos descontentes que escrevêssemos no livro de reclamações! 
Pois, o livro de reclamações real é o do gráfico seguinte, onde é evidente a diminuição dos participantes ao longo dos anos!
Participantes na Meia Maratona da Nazaré desde 2011
Pessoalmente, gostava que a Meia Maratona da Nazaré continuasse por muitos e bons anos, cativando mais participantes e de certo modo que voltasse a ser uma referência no atletismo amador nacional.
A "Equipe" presente na Nazaré
A “Equipe” esteve representada ao mais alto nível, tendo a classificação que interessa ficado ordenada do seguinte modo:

Paulo Amaro: 01:32:08
Paulo Oliveira: 01:35:07
Samuel Oliveira: 01:35:39
Rosa Moreira: Caminhada

Boas corridas!